Startup para salvar bebés prematuros

Cerca de meio milhão de bebés prematuros nascem anualmente em todo mundo. A prematuridade lidera as causas de morte neonatal e é responsável pela metade dos casos de comprometimento neurológico em crianças.
Identificar a correta idade gestacional é o desafio para as equipas médicas que trabalham sobretudo em comunidades rurais de países pobres, onde a maioria dos recém-nascidos não tiveram acompanhamento médico antes do parto.

Um grupo de investigadores da Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil, desenvolveu uma nova maneira de medir a idade gestacional em recém-nascidos, e esse projeto integra o grupo de candidatos da aceleradora portuguesa BGI – Building Global Innovators, na edição de 2016.

A equipa da Newborn Skin Age criou um dispositivo portátil para medir as propriedades da epiderme da pele e, através dessa análise, determinar a idade gestacional em recém-nascidos. A cronologia gestacional é o marcador mais importante de sobrevida do recém-nascido. Para a identificar, atualmente, utiliza-se um conjunto de parâmetros clínicos e o ultrassom (ecografia), porém, quando estes são inconclusivos ou não existem, as equipas de saúde não tinham até agora nenhuma ferramenta que ajudasse a determinar a idade gestacional para tomar decisões para o melhor cuidado com o bebé. “O nosso dispositivo possibilita a tomada de decisões clínicas definidoras do prognóstico de vida do neonato em tempo oportuno, pelos profissionais de saúde” sublinha Rodney Guimarães, o astrofísico que integra a equipa.

Sabe-se que a epiderme da pele muda ao longo do desenvolvimento fetal e que a pele absorve e reflete os fotões emitidos por dispositivos óticos. A partir dessas observações a equipa da Newborn Skin Age desenvolveu uma técnica ótica não-invasiva, chamada pletismografia fotoelétrica, que permite a análise de um material quando exposto a uma luz intensa.

“A nossa invenção consiste no desenvolvimento de um dispositivo não invasivo, de baixo custo, portátil, robusto e facilmente manufaturável que utiliza a luz como forma de medida indireta da idade gestacional. O dispositivo é capaz de estimar a idade gestacional correlacionando certas propriedades biológicas da pele e de exibir, num display acoplado ao dispositivo de forma embarcada ou diretamente em um smartphone, o valor da idade gestacional assim como uma estimativa do erro sobre a mesma”, explica Rodney Guimarães.

Uma das prioridades definidas pela equipa foi encontrar uma solução de fácil manuseio, transporte e de baixo custo. “Uma solução acessível tem seu potencial de impacto social multiplicado”, defendem. “Acreditamos que com o sucesso deste projeto, intervenções mais oportunas possam mudar o prognóstico de um bebê ao nascer e prevenir doenças na infância”, destaca Zilma Reis, coordenadora do projeto e professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil.

“Grande parte das gestantes não tem acesso, por diversos motivos, à ultrassonografia obstétrica no primeiro trimestre de gestação, utilizado para definir a idade gestacional com maior precisão, considerado ‘padrão-ouro’. Na ausência dessa informação, uma alternativa é fazer um exame clínico, ao nascimento, para avaliar a maturidade do recém-nascido, avaliando as características físicas e neurológicas, por meio de um escore. Porém, este é um exame que exige expertise na técnica e, muitas vezes, não é factível pela instabilidade clínica do recém-nascido ao nascimento. Além disso, o erro na estimativa pode ser de até 2 semanas, considerado grande, principalmente nos casos de recém-nascidos prematuros”, explica Zilma Reis.

A precisão é, portanto, fator decisivo na tecnologia desenvolvida pela equipa da Newborn Skin Age. “Nosso dispositivo foi desenvolvido para esses casos em que a idade gestacional é desconhecida, ou imprecisa” frisa Rodney Guimarães. O software transforma o sinal de luz em dados transmissíveis, e uma vez calibrado, esperam reduzir significativamente a margem de erro atual.

A equipa brasileira integra os 10 projetos escolhidos pela aceleradora BGI – Building Global Innovators, considerada uma das 100 maiores aceleradoras de inovação em tecnologia do mundo, segundo o “Hot Topics Accelerator” de 2015. Durante os próximos dois anos, os pesquisadores receberão apoio técnico da BGI. “Precisamos obter experiência para a elaboração de um Plano de Negócios e Marketing; uma aceleradora é ideal para esse fim”, diz Rodney Guimarães. “A imersão durante os 5 dias que participámos foi reveladora: o que fazer o que não fazer, o que queremos e principalmente o que não queremos. Esse é um novo mundo, que exige mais do que talvez estejamos dispostos a dar. De qualquer forma é um aprendizado que nos mostrou parte do nosso caminho. Continuamos esse aprendizado” adianta.

O objetivo da equipa Newborn Skin Age é captar novos recursos e investidores para que o novo produto ultrapasse os limites da universidade, rumo aos seus consumidores, mas o projeto ainda não está nessa fase. “Estamos ainda pensando sobre essa possibilidade, provavelmente iremos licenciar o nosso produto, caso essa opção nos seja oferecida” admite Rodney Guimarães.

A ideia inicial surgiu com a participação da professora Zilma Reis no júri de mestrado de um aluno do professor Rodney Guimarães onde a proposta era o desenvolvimento de um oxímetro a baixo custo. A equipa conta atualmente com oito membros originários de várias áreas do conhecimento, como Medicina, Astrofísica, Biomedicina, Engenharia Elétrica e Computação, entre eles eles os fundadores Maria Albertina Rego (Pediatra), Rodney Guimarães (Astrofísico) e Zilma Silveira Reis (Obstetra).

Fonte: Empreendedor.com, 01/09/2016 Autor: José Mendes

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *